domingo, 22 de Março de 2009

Há sempre um olhar
À superfície do amor
Quando toco o teu corpo
Há sempre o teu corpo
No fim do meu olhar
Quando falo de amor
Há sempre amor
No fundo do meu corpo
Quando olho para ti.

sexta-feira, 13 de Março de 2009

Paraíso

Dizes palavras
Feitas de silêncio
e no silêncio deste amor inominável
está tudo dito.
Sem pecado original,
Em jardins sem bem, nem mal,
O futuro é todo nosso.
Somos almas trocadas
Em corpos fundidos, desejos
Cumpridos em cada manhã.
Somos brisa e tempestade,
Gota e mar imenso; somos
O sol e a sombra, o princípio e o fim.
Somos conhecimento, roubado
No momento em que os lábios permutam
sabores de maçã.
Que venha o juízo! Sem medo
Nos amamos e somos
O que quisermos, e onde estivermos
Será paraíso.

sábado, 7 de Março de 2009

Enlarge

Durante muito tempo recebi, na minha caixa de correio electrónico, aqueles simpáticos anúncios que me propunham de mil maneiras: “enlarge your penis!”. Ultimamente deixei de receber. Sinto uma certa tristeza. E não consigo perceber a razão para ter sido retirado da lista: o meu pénis continua do mesmo tamanho…

quinta-feira, 5 de Março de 2009

Divagação

O difícil de escrever é começar. Diante de uma página Word em branco, o cérebro tem tendência a fazer uma de duas coisas: ou paralisar ou enlear-se. O meu, geralmente, enleia-se. Por onde começo, como articulo os argumentos, como sistematizo, como lhe dou ritmo, vida, movimento… E enleio-me.
Uma forma de escapar a isto é começar a escrever sobre a dificuldade de começar. Pronto: digo que é difícil, coisa e tal, dou-lhe umas voltas e quando dou por mim começo a sentir uma certa soltura. O problema da soltura provocada assim é que não sabe por onde há-de seguir. Por exemplo agora, por falar em soltura, só me lembro de diarreia. E diarreia não é, obviamente, um tema suficientemente interessante para explanar aqui. Poderia até ser, na medida em que, num momento ou outro, já nos afectou a todos. E o que nos afecta a todos é, naturalmente, pertinente que baste. Neste sentido, a diarreia é como o aquecimento global: quando ouvimos falar disso, achamos que não é nada connosco mas, quando vamos a ver melhor, há circunstâncias em que parece que é totalmente culpa nossa.
Esta palavrita - culpa - que germinou agora mesmo na última linha, também é assunto que daria para longas e profícuas crónicas. A culpa que nos pesa na consciência, por exemplo. E só esta expressão é, de si, curiosa. O peso da culpa. Já pensaram como atribuímos uma qualidade física (peso: em quilos, arrobas, toneladas… lembra chumbo, metais pesados, enfim, convenções de pesos e medidas, matéria, pedra, ferro, sei lá…!) a uma realidade completamente imaterial? Eu sou infiel, guloso, adúltero, corrupto, promíscuo, (ou outra actuação tão apetecível como estas) e depois chego a casa e, ai!, sinto o peso da culpa. Ou não. Mas, se não a sinto, sou capaz de ficar ainda pior, porque penso – ou alguém me diz, que é ainda pior! – que sou um retorcido sem consciência, porque nem a culpa me pesa. Lá está: o peso. Os únicos seres aparentemente imunes a esta fatalidade são os políticos. Como todos sabemos, dentro desta classe há uma espécie de regra não escrita que os faz vir regularmente a público (uns com mais regularidade que outros) garantir que têm a consciência tranquila. Sem peso, portanto. Limpa. Imaculada. É isto, e só isto, acreditem que, às vezes, me faz desejar entrar nesse fantástico mundo da ‘administração da polis’.
Este tema conectou-se, subitamente, por via de curto circuito sináptico, com a crise económica. A relação apareceu-me, cristalina: diarreia, peso na consciência, políticos, crise económica. Porque agora só se fala da crise. Pela primeira vez na minha vida, assisto a uma crise que, entre muitas outras desgraças, levou um país inteiro à falência. Não uma empresazeca manhosa, nem sequer das outras, grandes, com colarinhos brancos e fundos perdidos em off shores. Um país inteiro. Lembro-me que fiquei estupefacto quando li o título há uns meses atrás: “Islândia na bancarrota”. Logo a Islândia. Quer dizer, se fosse, sei lá, o Chipre, ou até o Mónaco (viram? Repararam como ao dizer Mónaco os neurónios nos levaram por caminhos já conhecidos: colarinhos brancos, off shores, crise, peso de consciência, diarrreia…?), a surpresa não era tanta. Mas a Islândia parecia terra de gente séria! E digo parecia porque era isso mesmo: um parecer. Um parecer feito de subtilezas associativas: Islândia, frio, gelo, icebergs, gente séria, por oposição a calor, praia, corpos nus, desbunda, desonestidade…
Isto tem-me dado muito que pensar. E, ao pensar, reparei, estupefacto, num dado que parece ter passado ao lado dos analistas mais minuciosos. Foi preciso vir uma crise destas, e uma bancarrota, para que uma lésbica subisse ao poder. Ora, chegados aqui, eis a dúvida: este dado indicia discriminação dos homossexuais, na medida em que só lhe permitem o acesso ao poder em países falidos, ou é, antes, reconhecimento implícito de que as situações dramáticas requerem “queer power”? Não sei. E o não saber tem-me consumido, por via da minha baixíssima tolerância à incerteza. Também tenho intolerância à lactose, mas a verdade é que não me perturba tanto. De facto, esta última só me provoca um ligeiro mal estar. Nos casos mais dramáticos causa, quando muito, uma fluída diarreia. Mas eu já tinha falado nisto, não tinha?!

quarta-feira, 4 de Março de 2009

Sem título nem vontade

Estou aqui sentado há duas horas. Diante de mim está uma mesa despida, com uma folha amarrotada abandonada sobre um canto. E ao fundo, a parede de tons claros. Não estou apenas a olhar para a folha. Nem para a parede. Isso seria coisa de tolos ou deprimidos. O cérebro entrou numa deriva anestesiada, pairando, como pairam os pássaros sobre as montanhas que nos cortam o horizonte.
A verdade é que trago dentro uma raiva calada. E lembro-me de sentir uma forte indignação a consumir-me. Mas que posso fazer quando a raiva é já só anestesia e a própria alma desenvolveu tolerância à indignação?
No fundo, sei que não vou fazer nada. Ou, quando muito, talvez escreva um texto entre a alucinação e o delírio e o publique num qualquer blogue anónimo. Este texto, neste blogue, por exemplo.
Na folha amarrotada, abandonada sobre a mesa, jazem as cinco primeiras linhas de um poema. Escrevi-o esta tarde, num momento de optimismo intempestivo. Já o esqueci. De poesia estão cheios os livros e os desejos. Sem falar nos sonhos, depositários de rimas e métricas inverosímeis.
A poesia é subversiva. Leva-nos por olimpos de deuses imortais, ilhas de amores marginais, por futuros alinhados em arquitecturas impossíveis. Mente, portanto. Se se limitasse à verdade, não seria poesia. Seria prosa manhosa. Prosaica, até. Deixemos os poemas. Amarrotemo-los. Abandonados assim, reduzem-se ao que são: um pedaço de papel, para o qual podemos ficar, sentados, a olhar horas a fio. Sem provocações, nem altercações da ordem da alma. Sem beleza, sem ilusões. Só assim. Um descanso…

sábado, 28 de Fevereiro de 2009

Uma surpresa sueca

Às vezes, os bons filmes são como os espiões: vêm do frio para nos surpreenderem. Patrik 1,5 (2008) é uma dessas boas surpresas, neste caso acabadinho de chegar da Suécia.
Göran e Sven são um casal gay, na trintena, que acabam de mudar-se para um daqueles bairros residenciais com muitas sebes verdes, jardins floridos e famílias felizes. Estão decididos a adoptar uma criança, mas o processo não é tão fácil como pensavam. Finalmente são notificados de que lhes foi atribuída uma criança, chamada Patrik. Mas a criança que eles pensaram ter um ano e meio, devido a uma gralha traiçoeira (daí o título) e por isso aceitaram é, afinal, um jovem de 15 anos, delinquente e homofóbico. A partir daqui constrói-se o enredo, feito de choques com a burocracia, crises conjugais e mal-entendidos vários.
Oscilando entre o drama e uns toques de comédia ligeira, com sensibilidade e bom senso, desmontam-se preconceitos e clichés em relação à homossexualidade, à homoparentalidade e sublinha-se o que é importante: um profundo sentido de humanidade.
Ella Lemhagen consegue construir um filme tocante. Sobre a fragilidade das relações humanas mas, ao mesmo tempo, sobre como essa fragilidade permite reconstruções e novos desenhos. É uma narrativa sobre o amor, feito também de medos e fracassos, e sobre como ele pode mudar as pessoas. Nada no filme é excessivo, supérfluo ou incoerente. Bem escrito, bem interpretado e bem “cosido”. Um dos melhores filmes que vi nos últimos tempos, dentro do que se convencionou chamar “universo gay”.
Esta minha surpresa apenas prova, suponho, a minha ignorância. A verdade é que o cinema nórdico é um mundo quase desconhecido para mim. E da Suécia, confesso, só mesmo algumas obras de Ingmar Bergman. Vou começar a estar mais atento.
Enquanto leste este texto, ouviste o "Here you come again", da banda sonora, embora numa versão diferente...

Chamem-me mentiroso!

O Graphic Diary lembrou-se de mim. O que é bom. Mas, por outro lado, deu-me trabalho… o que já não é tão bom! Mas aceito com prazer o seu desafio: aqui ficam nove pérolas informativas sobre a minha pessoa. Três são descaradas mentiras. As outras seis, nem tanto…

1. Com uma garrafa de vinho tinto e um pedaço de queijo, faço uma festa. Quando tenho companhia, claro…
2. Passo a vida a pagar mensalidades no ginásio, sem nunca lá pôr os pés.
3. Sou rabugento quando me levanto. E mantenho-me assim com frequência.
4. Gosto de me deitar tarde. Muito tarde.
5. Gosto de me levantar cedo. Muito cedo.
6. Sou filho único.
7. Se tivesse um animal de estimação, seria um gato.
8. Já fui ver o mesmo filme duas vezes, na mesma semana, porque me esqueci do título e não reparei no cartaz.
9. Não sei andar de bicicleta.

9,5. Não sou mentiroso, mas ele obrigou-me!

quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2009

Dream Boy

Nathan é um jovem tímido e reservado. Vítima de abuso por parte do pai, vive entre o medo e o silêncio. Na pequena cidade rural, do sul religioso e preconceituoso dos EUA, para onde acaba de mudar-se, apaixona-se por Roy, o vizinho da quinta ao lado. Pouco a pouco, a relação entre os dois torna-se a única ligação de Nathan à esperança de felicidade.
James Bolton realiza Dream Boy (2008) a partir do livro homónimo, de Jim Grimsley. O livro é, quanto a mim, a melhor obra de Grimsley. Dá-nos um retrato da vida rural na América profunda dos anos 60, eivada de religiosidade puritana, ao mesmo tempo que nos conta a história de amor entre Nathan e Roy de uma forma realista e plena de sensibilidade.
Bolton segue fielmente o livro. Apenas muda o final, o que poderia ser uma boa opção porque Grimsley não foi feliz nas últimas páginas. Mas a fidelidade narrativa não faz um bom filme. O profundo mundo interior de Nathan é reduzido a apagamento e as cenas mais dramáticas são bons exemplos de mau cinema. As interpretações são apenas sofríveis e fazem perder boa parte da tensão que caracteriza a obra original. Resumindo, o rapaz de sonho faz sonhar muito pouco.
Apesar de tudo, o filme pode ser um bom pretexto para conhecer, ou revisitar, a obra de Grimsley, publicada em Portugal pela Teorema.

Outra razão para, apesar de tudo, ver o filme, é a banda sonora, com os originais a cargo de Richard Buckner. Fica uma amostra...

quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009

Sobre esta coisa de querer casar


O direito ao casamento civil entre pessoas do mesmo sexo vai ser reconhecido em Portugal. Não sabemos ainda quando. Mas vai. O vento sopra a favor. Até lá vai haver ruído e muita gritaria de ambos os lados. Faz parte do processo.
O casamento civil entre pessoas do mesmo sexo é um tema que me interessa. Porque, se me casasse, seria com uma pessoa do mesmo sexo. E, mesmo que nunca o faça, quero viver num país onde tenha direito a fazê-lo. Sou, portanto, parte interessada.
Feitas estas aclarações básicas, centremo-nos no tema.
1. A primeira ideia que me parece importante sublinhar é o facto de o casamento ser uma invenção humana. Ou seja, é uma construção cultural, civilizacional, jurídica.
Antes de haver “casamento” as pessoas já se juntavam: homens com mulheres, homens com homens, mulheres com mulheres, vários com um ou um com vários. As pessoas já se juntavam para criar os filhos, se os tinham, para terem sexo, para criarem melhores condições de vida, para garantirem afecto e segurança, para o que lhes desse na real gana.
Portanto, o casamento, como o conhecemos hoje, é uma construção nossa. É aquilo que a sociedade, como organização de indivíduos, considera ser adequado para o enquadramento das relações entre as pessoas. Com dois fins óbvios: o bem dos indivíduos e o bem comum. Parece que as pessoas gostam de casar. Sentem-se mais seguras, mais estáveis afectivamente, mais felizes. E a sociedade também ganha: indivíduos mais contentes fazem uma sociedade melhor.
Não há, portanto, nenhum “casamento natural”. Há, isso sim, uma tendência natural dos seres humanos (não só, mas vamos ao que interessa…) a juntarem-se, por muitas e boas razões diferentes e de muitas formas diferentes.
Tudo isto para dizer que argumentos que nos queiram convencer de que o casamento entre pessoas do mesmo sexo atenta contra o verdadeiro “casamento”… são larachas absurdas. O casamento é o que nós, comunidade humana, consensuarmos que deve ser.
2. Isto liga-se à segunda ideia fundamental: esta “construção” evolui de acordo com o amadurecimento civilizacional. O casamento era diferente há três mil anos do que é hoje. O casamento é diferente no Irão do que é em Portugal.
Nesta linha, parece ter chegado o momento em que a comunidade humana que hoje vive em Portugal, reconhece que a possibilidade de dois homens ou duas mulheres se casarem é uma coisa boa. Para os indivíduos e para a sociedade.
Este aspecto parece-me vital. É bom porquê? A isto voltarei no próximo episódio…


sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009

Para quem o celebre

O vírus

Há um vírus qualquer na blogosfera. Não há dia em que alguém não desista. Os que ficam, fazem cada vez mais pausas (como eu...). Muitos dos que não pausam, "enchem chouriço"... ou pausam e enchem chouriço (como eu)...
Estamos a ficar velhos, ou só aborrecidos?

Salvem-me


Um homossexual com problemas de toxicodependência é levado pela família para uma “comunidade terapêutico-espiritual”, daquelas que “curam” a homossexualidade e, de caminho, as outras dependências. Uma vez ali, apaixona-se por outro dos residentes e a história acaba, já se sabe, com final feliz.
Save me (2007) é um filme nascido de uma América que nos faz comichão. Puritanismo moralista protestante, fanatismo religioso e muito maniqueísmo travestido de boas intenções.
Apesar de muitas limitações – pobreza do argumento, interpretações fraquinhas, narrativa amparada em clichés – Robert Cary esforça-se por dar alguma profundidade às personagens numa luta, às vezes inglória, contra a planura psicológica. Embora comece bem, acaba por cair no confronto entre bons e maus de um mundo a preto e branco, com fantasmas freudianos pelo meio.
Nos papéis principais estão Chad Allen e Robert Gant. Sem brilho, mas cumprindo.

segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2009

É estranho...

(...)
"É certo ser estranho não mais habitar a terra,
não mais agir conforme o que mal acabáramos de aprender,
não mais dar às rosas e a todas as outras coisas identicamente promissoras
o significado do humano futuro;
não mais ser o que se tinha sido
em infinitamente angustiadas mãos, e abandonar até
o próprio nome, como se fosse um brinquedo quebrado.
É estranho não mais desejos desejar. Estranho,
passar a ver sem conexão, disperso pelo espaço,
tudo o que antes tinha unidade. Estar morto
é laborioso e cheio de recomeços, até que aos poucos
nos apercebamos da eternidade."
(...)
Rainier Maria Rilke, Primeira Elegia de Duino

domingo, 8 de Fevereiro de 2009

Um discurso para guardar


O vídeo já tem um tempinho. Mas vale a pena vê-lo. Obama faz um discurso memorável. Diz o óbvio. Mas, nos tempos que correm, estas evidências precisam ser ditas. E é muito bom que o actual Presidente dos EUA as tenha dito com esta claridade.
O discurso foi feito em Junho de 2006. E pode ser visto, na íntegra, aqui.

quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009

Querer sem querer


Quero arrancar-te
Das vísceras onde te enleias;
Raspar a tua pele
Que trago nas unhas,
Limpar o teu olhar
Dos meus olhos.
Quero encerrar-te
No sótão que a memória
Não alcança;
Apagar as palavras
Que tatuaste no meu ouvido.
Ou talvez seja apenas
O meu peculiar modo
De não te esquecer.

Como toda a gente


Emmanuel e Philippe têm uma relação estável e quase perfeita. Até que Emmanuel eleva o desejo de paternidade a objectivo prioritário. A partir daqui, Vincent Garenq constrói "Comme les Autres". O filme pretende dizer-nos, como o título indica, que os homossexuais têm o mesmo desejo, a mesma capacidade e o mesmo instinto para a paternidade. Mas a realidade não é tão simples. Ou é?


quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2009

Regresso

Já estava com saudades disto. Não sei bem porquê, mas voltar ao blogue depois de uma longa ausência, sabe a regresso a casa.
Agora, como quando chego de viagem, deixo as malas na sala e vou passar por todas as divisões, meter o nariz, ver se tudo e todos estão no sítio, abrir janelas para arejar... Depois, não sei bem quando, abrirei as malas e falarei das novidades com a vizinhança.

sexta-feira, 28 de Novembro de 2008

Aqui e agora

Não deixes que o conhecimento te faça cínico, nem que as certezas te impeçam a surpresa. Não permitas que os hábitos te ceguem ao sempre novo, nem te deixes cair no desencanto agastado de quem já nada espera.
Não creias saber tudo, porque então tudo passará por ti sem deixar rasto. Não creias conhecer todos, porque a todos perderás, um a um.
Deslumbra-te perante o mistério que sempre representará cada amigo de infância, cada amante de noites repetidas, cada companheiro de muitos caminhos. Não percas a novidade que cada rosto te traz com a madrugada, que cada sorriso te oferece como se fosse o primeiro.
Não andes sem ver, não passes sem atender, não corras como se só a meta fizesse sentido. Onde vais, com tanta pressa? Deslumbra-te na viagem: não voltarás a ver o mesmo rio, porque as águas serão outras; não verás o mesmo céu, porque os astros dançam sem parar; não verás a mesma pedra porque, amanhã, nem tu nem ela serão os mesmos. Pára, atende e vive. E saboreia, sente e deleita-te com este presente que não voltará.
E não percas a pureza no teu olhar. Deslumbra-te. Sente a perplexidade do cego de nascença que começa a ver. Agarra pela mão a criança que já foste e deixa que ela filtre o mundo para ti. E vive…vive, aqui e agora.


Ando à procura


Nesta noite sem luar
Não desisto de procurar
Entre os risos e os corpos,
Entre o desejo e a festa
Outra forma, outra promessa…
Ando há procura – será desta? –
Como louco, desvairado,
Daquela palavra certa,
Do gesto preciso,
Exacto,
Do espírito trocado
Que algum deus,
Descuidado,
Pôs noutro, por engano…

terça-feira, 18 de Novembro de 2008

Queres vir?

-Mas por que perdes tempo com esses sonhos e devaneios?
-Se deixasse de sonhar, que seria de mim? Queres que me resigne? Que desista? Que me acomode às fronteiras das circunstâncias?
-E por que não? Já sabes o que dizia o Ortega: “O Homem é ele e a sua circunstância”. Se é aqui que estás, talvez não fosse má ideia tentares construir aqui a tua felicidade.
-Parece-me que percebes mal Ortega. O facto de estar aqui, não significa que pertença aqui.
-E onde irás?
-Não sei. Queres vir?